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Mostrando postagens de Abril, 2010

A Folha, de Carlos Drummond de Andrade

A natureza são duas.
Uma,
tal qual se sabe a si mesma.
Outra, a que vemos. Mas vemos?
Ou é a ilusão das coisas?
Quem sou eu para sentir
o leque de uma palmeira?
Quem sou, para ser senhor
de uma fechada, sagrada
arca de vidas autônomas?
A pretensão de ser homem
e não coisa ou caracol
esfacela-me em frente à folha
que cai, depois de viver
intensa, caladamente,
e por ordem do Prefeito
vai sumir na varredura
mas continua em outra folha
alheia a meu privilégio
de ser mais forte que as folhas.(in A Paixão Medida)

Canto Esponjoso, de Drummond

Bela
esta manhã sem carência de mito,
E mel sorvido sem blasfêmia.Bela
esta manhã ou outra possível,
esta vida ou outra invenção,
sem, na sombra, fantasmas.Umidade de areia adere ao pé.
Engulo o mar, que me engole.
Valvas, curvos pensamentos, matizes da luz
azul
completa
sobre formas constituídas.Bela
a passagem do corpo, sua fusão
no corpo geral do mundo.
Vontade de cantar. Mas tão absoluta
que me calo, repleto.

A Flor e a Náusea, de Carlos Drummond de Andrade

Preso à minha classe e a algumas roupas,
vou de branco pela rua cinzenta.
Melancolias, mercadorias espreitam-me.
Devo seguir até o enjôo?
Posso, sem armas, revoltar-me?O tempo pobre, o poeta pobre
fundem-se no mesmo impasse
Em vão me tento explicar, os muros são surdos
Sob a pele das palavras há cifras e códigos.
O sol consola os doentes e não os renova
As coisas. Que tristes são as coisas, consideradas sem ênfase. Vomitar esse tédio sobre a cidade,
Quarenta anos e nenhum problema
resolvido, sequer colocado.
Nenhuma carta escrita nem recebida.
Todos os homens voltam para a casa.
Estão menos livres mas levam jornais
e soletram o mundo, sabendo que o perdem. Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não est'nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor. Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da trade
e lentamente passo a mão nessa forma insegura
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.…

Cantiga de viúvo, de Drummond

A noite caiu na minh'alma,
fiquei triste sem querer.
Uma sombra veio vindo,
veio vindo, me abraçou.
Era a sombra de meu bem
que morreu há tanto tempo.Me abraçou com tanto amor
me apertou com tanto fogo
me beijou, me consolou.Depois riu devagarinho,
me disse adeus com a cabeça
e saiu. Fechou a porta.
Ouvi seus passos na escada.
Depois mais nada…acabou.

A falta que ama, de Carlos Drummond de Andrade

Entre areia, sol e grama
o que se esquiva se dá,
enquanto a falta que ama
procura alguém que não há.
Está coberto de terra,
forrado de esquecimento.
Onde a vista mais se aferra,
a dália é toda cimento.
A transparência da hora
corrói ângulos obscuros:
cantiga que não implora
nem ri, patinando muros.
Já nem se escuta a poeira
que o gesto espalha no chão.
A vida conta-se, inteira,
em letras de conclusão.
Por que é que revoa à toa
o pensamento, na luz?
E por que nunca se escoa
o tempo, chaga sem pus?
O inseto petrificado
na concha ardente do dia
une o tédio do passado
a uma futura energia.
No solo vira semente?
Vai tudo recomeçar?
É a falta ou ele que sente
o sonho do verbo amar?

A Falta de Érico, de Carlos Drummond de Andrade

Falta alguma coisa no Brasil
depois da noite de Sexta-feira
Falta aquele homem no escritório
a tirar da máquina elétrica
o destino dos seres,
a explicação antiga da terra. Falta uma tristeza de menino bom
caminhando entre adultos
na esperança da justiça
que tarda - como tarda!
a clarear o mundo. Falta um boné, aquele jeito manso,
aquela ternura contida, óleo
a derramar-se lentamente,
falta o casal passeando no trigal.
Falta um solo de clarineta.

A Excitante Fila Do Feijão, de Carlos Drummond de Andrade

Larga, poeta, a mesa de escritório,
esquece a poesia burocrática
e vai cedinho à fila do feijão.
Cedinho, eu disse? Vai, mas é de véspera,
seja noite de estrela ou chuva grossa,
e sem certeza de trazer dois quilos.
Certeza não terás, mas esperança
(que substitui, em qualquer caso, tudo),
uma espera-esperança de dez horas.
Dez, doze ou mais: o tempo não importa
quando aperta o desejo brasileiro
de ter no prato a preta, amiga vagem.
Camburões, patrulhinhas te protegem
e gás lacrimogêneo facilita
o ato de comprar a tua cota.
Se levas cassetete na cabeça
ou no braço, nas costas, na virilha,
não o leves a mal: é por teu bem.
O feijão é de todos, em princípio,
tal como a liberdade, o amor, o ar.
Mas há que conquistá-lo a teus irmãos.
Bocas oitenta mil vão disputando
cada manhã o que somente chega
para de vinte mil matar a gula.
Insiste, não desistas: amanhã
outros vinte mil quilos em pacotes
serão distribuídos dessa forma.
A conta-gotas vai-se escoando o estoque
armazenado nos porões do Estado.
Assim não falta nunca fe…

“Acordar, Viver”, de Carlos Drummond de Andrade

Como acordar sem sofrimento?
Recomeçar sem horror?
O sono transportou-me
àquele reino onde não existe vida
e eu quedo inerte sem paixão.
Como repetir, dia seguinte após dia seguinte,
a fábula inconclusa,
suportar a semelhança das coisas ásperas
de amanhã com as coisas ásperas de hoje?
Como proteger-me das feridas
que rasga em mim o acontecimento,
qualquer acontecimento
que lembra a Terra e sua púrpura
demente?
E mais aquela ferida que me inflijo
a cada hora, algoz
do inocente que não sou?
Ninguém responde, a vida é pétrea.

A Câmara Viajante, de Carlos Drummond de Andrade

Que pode a câmara fotográfica?
Não pode nada.
Conta só o que viu.
Não pode mudar o que viu.
Não tem responsabilidade no que viu.
A câmara, entretanto,
Ajuda a ver e rever, a multi-ver
O real nu, cru, triste, sujo.
Desvenda, espalha, universaliza.
A imagem que ela captou e distribui.
Obriga a sentir,
A, driticamente, julgar,
A querer bem ou a protestar,
A desejar mudança.
A câmara hoje passeia contigo pela Mata Atlântica.
No que resta - ainda esplendor - da mata Atlântica
Apesar do declínio histórico, do massacre
De formas latejantes de viço e beleza.
Mostra o que ficou e amanhã - quem sabe? acabará
Na infinita desolação da terra assassinada.
E pergunta: "Podemos deixar
Que uma faixa imensa do Brasil se esterilize,
Vire deserto, ossuário, tumba da natureza?"
Este livro-câmara é anseio de salvar
O que ainda pode ser salvo,
O que precisa ser salvo
Sem esperar pelo ano 2 mil.

A bruxa, de Carlos Drummond de Andrade

Nesta cidade do Rio,
de dois milhões de habitantes,
estou sozinho no quarto,
estou sozinho na América.
Estarei mesmo sozinho?
Ainda há pouco um ruído
anunciou vida a meu lado.
Certo não é vida humana,
mas é vida. E sinto a bruxa
presa na zona de luz.
De dois milhões de habitantes!
E nem precisava tanto...
Precisava de um amigo,
desses calados, distantes,
que lêem verso de Horácio
mas secretamente influem
na vida, no amor, na carne.
Estou só, não tenho amigo,
e a essa hora tardia
como procurar amigo?
E nem precisava tanto.
Precisava de mulher
que entrasse nesse minuto,
recebesse este carinho,
salvasse do aniquilamento
um minuto e um carinho loucos
que tenho para oferecer.
Em dois milhões de habitantes,
quantas mulheres prováveis
interrogam-se no espelho
medindo o tempo perdido
até que venha a manhã
trazer leite, jornal e calma.
Porém a essa hora vazia
como descobrir mulher?
Esta cidade do Rio!
Tenho tanta palavra meiga,
conheço vozes de bichos,
sei os beijos mais violentos,
viajei, briguei, aprendi.
Estou cercado de olhos,
de…

Cinco minutos de uma vida

Leia Salmo 116.1-9; 12-14Amo o Senhor porque ele ouve a minha voz e as minhas súplicas. Pois livraste da morte a minha alma, das lágrimas, os meus olhos; da queda, os meus pés. (Salmo 116.1, 8)Ao visitar comunidades rurais no sertão nordestino, como parte de uma equipe de saúde, senti algo roçar meu tornozelo durante a subida de um monte. Não sei se foi uma planta, um animal ou inseto. Mas, em pouco tempo, senti uma sensação estranha de formigamento e dormência no corpo. Era um princípio de choque anafilático! Ao perceber a reação alérgica, meus companheiros levaram-me ao sítio mais próximo, distante dali uns 20 minutos. No caminho, fui piorando muito. Ao chegar ao sítio, mal andava, enxergava, falava ou respirava - não tinha mais forças, minha glote estava se fechando! Mesmo que fosse ao hospital (o mais próximo estava a 40 minutos dali), eu não chegaria viva. Deram-me um pequeno comprimido antialérgico, mas não consegui engolir. Sabia que estava morrendo e só me restava clamar ao Se…

A Igreja do Diabo, de Machado de Assis

CAPITULO I
DE UMA IDEIA MIRÍFICA Conta um velho manuscrito beneditino que o Diabo, em certo dia, teve a idéia de fundar uma igreja. Embora os seus lucros fossem contínuos e grandes, sentia-se humilhado com o papel avulso que exercia desde séculos, sem organização, sem regras, sem cânones, sem ritual, sem nada. Vivia, por assim dizer, dos remanescentes divinos, dos descuidos e obséquios humanos. Nada fixo, nada regular. Por que não teria ele a sua igreja? Uma igreja do Diabo era o meio eficaz de combater as outras religiões, e destruí-las de uma vez. - Vá, pois, uma igreja, concluiu ele. Escritura contra Escritura, breviário contra breviário. Terei a minha missa, com vinho e pão à farta, as minhas prédicas, bulas, novenas e todo o demais aparelho eclesiástico. O meu credo será o núcleo universal dos espíritos, a minha igreja uma tenda de Abraão. E depois, enquanto as outras religiões se combatem e se dividem, a minha igreja será única; não acharei diante de mim, nem Maomé, nem Lutero…

A Lagarta e a Borboleta

Uma coisa que eu sempre gostei de fazer é falar através de metáforas. Gosto de fazer as pessoas pensarem. Outro dia me ocorreu uma história que eu resolvi adaptar para as conjunturas da atual situação brasileira.De cinco em cinco anos, num brejo, todos os insetos elegiam um representante. O vencedor da eleição era chamado de o Rei dos Insetos, e este ganhava poderes para definir os sistemas de trabalho das formigas, os horários do canto da cigarra e até altura do vôo dos mosquitos.
Em todas as eleições duas forças polarizavam a intenção de votos. Tinha o grupo dos insetos que votavam na Lagarta e o grupo dos insetos que votavam na Borboleta.
Desde a primeira eleição, a Borboleta sempre foi eleita, deixando os Lagartistas com raiva. Os insetos optavam por escolher a Borboleta como representante porque ela era vistosa, bonita, enquanto a Lagarta tinha um aspecto repugnante, com seus pelos saltando pelo corpo asqueroso e, apesar de ter boas idéias, nunca era eleita.
A Formiga, como Lagartis…

A Formiga e o Gafanhoto - Versão adaptada à realidade brasileira

VERSÃO CLÁSSICAEra uma vez uma formiga que trabalhava duro no sol escaldante do verão, construindo sua casa e acumulando suprimentos para o longo inverno que se aproximava. O gafanhoto pensou: Que idiota! E passava o tempo dando gargalhadas, cantando e dançando como nunca e assim consumiu o verão. Ao chegar o inverno, a formiga estava aquecida e bem alimentada. O gafanhoto não tinha abrigo nem comida e morreu de frio.
MORAL DA HISTÓRIA: TRABALHE DURO! SEJA PREVIDENTE E RESPONSÁVEL!
VERSÃO MODERNA:Era uma vez uma formiga que trabalhava duro no sol escaldante do verão, construindo sua casa e acumulando suprimentos para o longo inverno que se aproximava. O gafanhoto pensou: Que idiota! E passou o tempo dando gargalhadas, cantando e dançando como nunca e assim consumiu o verão.Ao chegar o inverno, o gafanhoto, tremendo de fio, convocou a imprensa para uma entrevista e exigiu explicações. Por que é permitido à formiga um inverno com uma toca aquecida e boa alimentação enquanto outros estão e…

O presente de Deus

Leia Efésios 2.4-10E o meu Deus, segundo a sua riqueza em glória, há de suprir, em Cristo Jesus, cada uma de vossas necessidades. Filipenses 4.19
A chuva caía tão delicadamente que eu mal a notava. Boa parte da Austrália tem sofrido a mais devastadora seca de nossa história. Minha mente remonta aos dias da minha infância, quando eu pulava nas poças de água após uma tempestade. Quando ocorre uma, não podemos ignorar a chuva que cai pesadamente à nossa volta, mas naquele dia ela caía suavemente, abençoando a terra. Eu podia ter esperança de novo crescimento. Ao pensar na chuva, lembrei-me da graça e misericórdia de Deus, que cai livremente sobre mim - chegando às vezes tão silenciosamente que mal as reconheço. Somente depois de ver os resultados dessas bênçãos reconheço o quanto Deus me deu todas as pequenas coisas de que preciso a cada dia. Oração: Deus gracioso, perdoa-nos quando não reconhecemos Tuas dádivas. Ajuda-nos a perceber-Te em ação, tanto quando derramas liberalmente as Tuas …

Fala, amendoeira – Texto de Drummond

Esse ofício de rabiscar sobre as coisas do tempo exige que prestemos alguma atenção à natureza – essa natureza que não presta atenção em nós. Abrindo a janela matinal, o cronista deparou no firmamento, que seria de uma safira impecável se não houvesse a longa barra de névoa a toldar a linha entre céu e chão – névoa baixa e seca, hostil aos aviões. Pousou a vista, depois, nas árvores que algum remoto prefeito deu à rua, e que ainda ninguém se lembrou de arrancar, talvez porque haja outras destruições mais urgentes. Estavam todas verdes, menos uma. Uma que, precisamente, lá está plantada em frente à porta, companheira mais chegada de um homem e sua vida, espécie de anjo vegetal proposto ao seu destino. Essa árvore de certo modo incorporada aos bens pessoais, alguns fios elétricos lhe atravessam a fronde, sem que a molestem, e a luz crua do projetor, a dois passos, a impediria talvez de dormir, se ela fosse mais nova. Às terças, pela manhã, o feirante nela encosta sua barraca, e, ao entar…

A arte de enganar – Texto de Boris Casoy

O uso da emoção é um dos instrumentos mais comuns nas campanhas eleitorais. Quanto menos informada é a população de eleitores, mais a emoção é eficaz para conseguir votos. Embora isso seja pouco ou nada mais divulgado, no Brasil a tentativa de envolver as emoções no turbilhão eleitoral é, provavelmente, a ferramenta mais importante de uma campanha. Cerca de 70% dos eleitores brasileiros não têm o primeiro grau completo. Na visão dos políticos, dos publicitários e especialistas que dirigem campanhas eleitorais, é bem mais prático influenciar essas pessoas usando sua emoção do que a razão. Mostrar as dificuldades reais do país através de estudos técnicos, apresentar gráficos, discutir opções teóricas de caminhos a serem seguidos e propor planos de governo reais, tudo isso é considerado totalmente sem efeito, inútil, por aqueles que dirigem campanhas eleitorais.
Qual foi, então, a solução encontrada para essas campanhas? O uso da emoção, dos sentimentos humanos. Para isso nada mais apr…

Carta aos pais – Texto de Rubem Alves

Também sou pai e portanto compreendo. Vocês querem o melhor para o filho, para a filha. A melhor escola, os melhores professores, os melhores colegas. Vocês querem que filhos e filhas fiquem bem preparados para a vida. A vida é dura e só sobrevivem os mais aptos. É preciso ter uma boa educação. Compreendo, portanto, que vocês tenham torcido o nariz ao saber que a escola ia adotar uma política estranha: colocar crianças deficientes nas mesmas classes das crianças normais. Os seus narizes torcidos disseram o seguinte: Não gostamos. Não deveria ser assim! O problema começa com o fato de as crianças deficientes serem fisicamente diferentes das outras, chegando mesmo, por vezes, a ter uma aparência esquisita. E isso cria, de saída, um mal-estar... digamos... estético. Vê-las não é uma experiência agradável. É preciso se acostumar... Para complicar há o fato de as crianças deficientes serem mais lerdas: elas aprendem devagar. As professoras vão ser forçadas a diminuir o ritmo do programa pa…

Rubem Alves por ele mesmo

Nasci no dia 15 de setembro de 1933. Sobre o meu nascimento veja a crônica Que bom que eles se casaram. Faça as contas para saber quantos anos não tenho. Que "não tenho", sim; porque o número que você vai encontrar se refere aos anos que não tenho mais, para sempre perdidos no passado. Os que ainda tenho, não sei, ninguém sabe. Nasci no sul de Minas, em Boa Esperança que, naquele tempo, se chamava Dores da Boa Esperança. Depois tiraram o "Dores". Pena, porque dores de boa esperança são dores de parto: há dores que anunciam o futuro. Boa Esperança é conhecida mais pela serra que o Lamartine Babo, ferido por um amor impossível, transformou em canção: "Serra da Boa Esperança", que você ouviu logo que entrou na minha casa. Meu pai era rico, quebrou, ficou pobre. Tivemos de nos mudar. Dos tempos de pobreza só tenho memórias de felicidade. Albert Camus dizia que, para ele, a pobreza (não a miserabilidade) era o ideal de vida. Pobre, foi feliz. Conheceu a infel…

Quando Deus chama

Leia Lucas 11.5-10Nisto conhecerão todos que sois meus discípulos, se tiverdes amor uns aos outros. João 13.35
A baixa luminosidade do farol de emergência me dizia que o carro no acostamento estava lá já havia algum tempo. "Precisam de ajuda?", perguntei. "Sim", respondeu o motorista enquanto ajudava sua esposa a entrar em meu carro. Ambos eram surdos. Perguntei se poderia levá-los a um telefone ou a um posto de serviço. "Não, obrigado. Apenas nos leve para casa", respondeu. A casa deles ficava 50 quilômetros depois da minha. Queria ajudá-los, mas aquilo me parecia um pouco demais. Tentei encontrar uma desculpa, mas não encontrei nenhuma. Perguntei, com relutância: "Vocês gostariam de parar para comer alguma coisa?" "Não, obrigado; mas gostaríamos de ir a um banheiro." Quando estávamos a caminho da casa deles, perguntei quanto tempo eles tinham ficado parados. "Três ou quatro horas", disse o homem. Balancei a cabeça em descréd…

Fernando Pessoa - Para Sempre

Por que Deus permite que as mães vão se embora? Mãe não tem limite, é tempo sem hora, luz que não se apaga quando sopra o vento e chuva desaba, veludo escondido na pele enrugada, água pura, ar puro, puro pensamento. Morrer acontece com o que é breve e passa sem deixar vestígio. Mãe, na sua graça, é eternidade. Por que Deus se lembra - mistério profundo - de tirá-la um dia? Fosse eu Rei do Mundo, baixava uma lei: Mãe não morre nunca, mãe ficará sempre junto de seu filho e ele, velho embora, será pequenino feito grão de milho.

Alimento para a alma

Leia Lucas 22.7-20
Aquele, porém, que se gloria, glorie-se no Senhor. 2 Coríntios 10.17
Papai e eu preparávamos a galinha no quintal enquanto mamãe fazia macarrão caseiro na cozinha. Em pouco tempo, o aroma de galinha cozinhando enchia nossa casinha. Até hoje, minha comida de conforto é macarrão caseiro com montes de frango sobre purê de batatas. Era frequente Jesus usar imagens de banquetes e comida para ensinar sobre Deus. Uma delas é a da refeição da Páscoa, durante a Semana Santa. Quando Jesus partiu e dividiu o pão, Ele Se tornou o pão da vida (Veja João 6.48-51.). Na comunhão, nós nos conectamos às nossas raízes: as ocasiões e as pessoas com quem comungamos, as lágrimas que derramamos, as promessas que fizemos e os fardos que colocamos de lado ao comungar. Essas experiências nos conectam a Deus e moldam nossa identidade como pessoas de fé. Ao partilharmos a Ceia do Senhor, recebemos alimento para o espírito. Para quem está cansado e sobrecarregado, ela é descanso para a alma e for…