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22 de março de 2010

Se a sua cozinheira quiser cantar enquanto cozinha, não deixe...

 

Desejo dar-lhe um estranho conselho, um conselho que nunca imaginei que um dia eu fosse dar. Esse é o conselho: Se a sua cozinheira tiver o costume de cantar enquanto cozinha, não permita. Cozinheiras que cantam em serviço podem, um dia, se transformar num imenso problema para você, com conseqüências financeiras inimagináveis... Se você acha que perdi o juízo, espere um pouco e você compreenderá.

As explicações, freqüentemente, começam muito longe... Começo com uma conversa entre dois jagunços do Grande Sertão - Veredas, do Guimarães Rosa. Um deles confidencia ao seu companheiro: "Matar eu mato. Mas nunca fico com raiva..." O seu colega, duro de entendimento por lhe faltarem sutilezas psicológicas, não entende e pede explicação. O outro responde curto e grosso: "Quem fica com raiva leva o outro para a cama." Eu já disse que o ódio gruda mais que o amor. Você está amando... O amor é feliz, cheio de memórias bonitas. Você vai para a cama e dorme sorrindo. E sonha... Mas aí acontece algo, alguém lhe faz uma coisa que lhe dá muita raiva. A raiva toma conta de tudo, sentimentos e pensamentos. Não o deixa. Sua vontade é gritar, bater, destruir. É hora de dormir. Seus olhos estão pesados. Você quer dormir. Mas a raiva não o deixa. Você vai para a cama e ao seu lado se deita... a pessoa de quem você está com raiva. Você quer pensar coisas bonitas, quer pensar na pessoa amada. Mas aquela pessoa, ao lado, não deixa...

Pois é isso que está acontecendo comigo. Estou com muita raiva. E, por causa da raiva, estou levando para a minha cama um garçom que se diz cantor. E, ao meu lado, ele canta valsas do Sílvio Caldas...

Tive um restaurante, o Dali Restaurante-Bar. Quando sonhei o Dali, tudo era alegria: as fontes, as árvores, os jardins, os quadros, os drinks, a comida, os amigos reunidos e a música. Sim, música. Sem a menor vergonha digo que tínhamos ali os melhores músicos de Campinas. Jamais aceitamos a idéia de ter música de segunda classe, para economizar. Os sonhos são assim: neles só o que é bom aparece. Os problemas surgem quando se tenta transformar o sonho em realidade.

Antes de continuar preciso fazer uma confissão. Sou um mau psicanalista. Talvez seja bom no consultório. Mas quando estou solto na vida a virtude que marca a arte da psicanálise me abandona. A psicanálise é uma arte perversa. Ela se baseia na desconfiança. Não acredita nas aparências. Vê um sorriso e logo pergunta: "Que coisas sinistras esse sorriso está escondendo?" Bachelard chegou a descrever um psicanalista como uma pessoa que, quando se lhe dão uma flor, logo pergunta: "Mas onde está o estrume?"

Sou mau psicanalista porque tenho a tendência de acreditar no rosto (me esquecendo de que um rosto é sempre uma máscara...). Foi assim que fui me relacionando com os funcionários do Dali, os garçons, os bar-men, os músicos, os cozinheiros, os ajudantes de cozinha. Eu achava que eram meus amigos. Todos sorriam para mim. Paguei muito caro a minha ingenuidade. Há rostos sorridentes onde se escondem cobras. Descobri, na minha pele, que a realidade não é a amizade. É aquilo a que Marx deu o nome de "luta de classes". A lição de política que não aprendi na universidade fui aprender pelo sofrimento no Dali...

O fato era que eu me comportava como um "paizão". Quem me pôs esse apelido foi o Edemilson, pedreiro que construiu o Dali e que sempre me foi leal. Queria ajudar a todos. Nos apertos todos me procuravam. E eu sempre dava um jeito.

Pois apareceu lá no Dali um garçom pedindo emprego. Era um homem de meia idade, estatura mediana, fala mansa, rosto triste, desempregado, pai de filhos. Fiquei com pena dele. E não só isso: gostei dele. Suas maneiras eram refinadas, o que revelava algo de suas origens. De fato, nas suas origens estava algo diferente. Ele não fora sempre um garçom. Um dia ele me mostrou um disco de vinil. Na capa, uma fotografia dele, jovem. Fora cantor. Fiquei com dó. Quem, um dia, gravou um disco, sonhou em ser grande cantor. Sonhou com palcos, shows, fama, dinheiro. Quem sabe, um dia, ele seria como Roberto Carlos. E vou batizá-lo de Roberto Carlos porque não posso dizer o seu nome verdadeiro. ele apareceu com um daqueles discos antigos de vinil. Mas ele não conseguiu ser cantor. Fracassou. Restou-lhe ser garçom. Olhava para aquele homem triste de fala mansa atendendo os clientes e me comovia, pensando que dentro dele havia um cantor estrangulado. E até lhe emprestei R$500,00 para fazer face a uma emergência, uma cirurgia de hemorróidas, coisa muito doída. E foi assim que, movido por compaixão, uma noite em que estava alegre, disse aos meus músicos, profissionais de primeira: "Se não for criar problema para vocês, deixem o Roberto Carlos cantar alguma coisa. Ele vai ficar feliz. Parece que ele canta músicas dos tempos do Sílvio Caldas..." E foi o que aconteceu. Para o Roberto Carlos foi a glória. De vez em quando os músicos lhe davam uma colher de chá. Fiquei com tanto dó dele que pedi ao pessoal do Correio Popular que escrevesse algo sobre ele. O que aconteceu. (Mal sabia que esse gesto de generosidade seria usado por ele para me apunhalar...)

Mas aí aconteceu o que sempre acontece em restaurantes: invejas entre os funcionários, brigas, desentendimentos. Havia um bar-man complicado, sistemático, de difícil relacionamento. A equipe embirrou com ele. "Paizão", entrei em cena para acalmar a família. Reuni os funcionários, inclusive o dito bar-man. Conversei com eles. Pedi diálogo e paciência. Terminada minha curta fala dei oportunidade para que quem quisesse falar falasse. E foi assim que eles, timidamente, começaram a articular suas queixas com o bar-man, que a tudo ouvia com absoluta elegância. Foi então que, de repente, rompendo o clima existente, houve uma explosão. O Roberto Carlos parecia possuído por um demônio. Começou a gritar, a dizer palavrões ao bar-man, terminando por ameaçá-lo de agressão física. Levei um susto. Ordenei que o Roberto Carlos se calasse. Foi como se eu não existisse. Repeti minha ordem uma, duas, três vezes, inutilmente. Então, diante desse desrespeito público à minha autoridade de patrão e da possibilidade de agressão, eu lhe disse: "Levante-se, recolha suas coisas e se vá. Você está despedido."

Um caso claro de demissão por justa causa. Mas, para isso, seria preciso que os funcionários testemunhassem perante o juiz. Mas ninguém quis. Funcionários de restaurante não testemunham contra colegas, a favor do patrão. Antes da verdade e da justiça, os interesses da classe. Conformei-me, então, em pagar os direitos que a Justiça do Trabalho determina. Mas eu não estava preparado para o que se seguiu. Ele, através do seu advogado (sem quem não se faz justiça), além dos direitos de garçom, pedia que ele fosse indenizado como "cantor do restaurante". E uma das peças do processo, prova contra mim, foi a tal reportagem que fiz publicar no Correio Popular, porque tive pena dele. Assim, estou me tornando um melhor psicanalista. Olhando para os olhos de pomba, fico preparado porque sei que lá dentro está aninhada uma cobra com bote armado. O juiz já deu a sentença. Segundo a sentença eu fui injusto. Não paguei ao artista Roberto Carlos aquilo que deveria ter pago - cantor que ele era. Já fiz o depósito de R$3.000,00, para ter direito a recorrer. Vocês não imaginam a raiva que dá ter de tirar um dinheiro ajuntado para pagar a mentira de um mentiroso. Por isso não estou conseguindo dormir. Fico rolando com o Roberto Carlos, ouvindo o Sílvio Caldas...

Compreendem, agora, porque não se deve deixar a cozinheira cantar em serviço? Porque pode ser que, ingressando em juízo, ela alegue que, além de cozinhar, ela era "artista em residência". O Roberto Carlos fez isso comigo. O que é que vai impedir que sua cozinheira faça o mesmo com você? Lembre-se de que as coisas mais inocentes podem, em juízo, ser invocadas como provas contra você.

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