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Mostrando postagens de Março, 2010

Clarice Lispector – O primeiro beijo

Os dois mais murmuravam do que conversavam: havia pouco iniciara-se o namoro e ambos andavam tontos, era o amor. Amor com o que vem junto: ciúme. _ Está bem, acredito que sou sua primeira namorada, fico feliz com isso. Mas me diga a verdade, só a verdade: você nunca beijou uma mulher antes de me beijar? Ele foi simples: _ Sim, já beijei antes uma mulher. _ Quem era ela?, perguntou com dor. Ele tentou contar toscamente, não sabia como dizer. O ônibus da excursão subia lentamente a serra. Ele, um dos garotos no meio da garotada em algazarra, deixava a brisa fresca bater-lhe no rosto e entrar-lhe pelos cabelos com dedos longos, finos e sem peso como os de uma mãe. Ficar às vezes quieto, sem quase pensar, e apenas sentir _ era tão bom. A concentração ao sentir era difícil no meio da balbúrdia dos companheiros.
E mesmo a sede começara: brincar com a turma, falar bem alto, mais alto que o barulho do motor, rir, gritar, pensar, sentir, puxa vida! como deixava a garganta seca. E nem sombra de …

[Drummond] Não quero ser o último a comer-te

Não quero ser o último a comer-te. Se em tempo não ousei, agora é tarde. Nem sopra a flama antiga nem beber-te aplacaria sede que não arde em minha boca seca de querer-te, de desejar-te tanto e sem alarde, fome que não sofria padecer-te assim pasto de tantos, e eu covarde a esperar que limpasse toda a gala que por teu corpo e alma ainda resvala, e chegasses, intata, renascida, para travar comigo a luta extrema que fizesse de toda a nossa vida um chamejante, universal poema.

[Drummond] No corpo feminino, esse retiro

No corpo feminino, esse retiro - a doce bunda - é ainda o que prefiro. A ela, meu mais íntimo suspiro, pois tanto mais a apalpo quanto a miro. Que tanto mais a quero, se me firo em unhas protestantes, e respiro a brisa dos planetas, no seu giro lento, violento... Então, se ponho e tiro a mão em concha - a mão, sábio papiro, iluminando o gozo, qual lampiro, ou se, dessedentado, já me estiro me penso, me restauro, me confiro, o sentimento da morte eis que adquiro: de rola, a bunda torna-se vampiro.

[Drummond] A bunda, que engraçada

A bunda, que engraçada Está sempre sorrindo, nunca é trágica. Não lhe importa o que vai Pela frente do corpo. A bunda basta-se. Existe algo mais? Talvez os seios. Ora - murmura a bunda - esses garotos Ainda lhes falta muito que estudar. A bunda são duas luas gêmeas Em rotundo meneio. Anda por si Na cadência mimosa, no milagre De ser duas em uma, plenamente.
A bunda de diverte Por conta própria. E ama. Na cama agita-se. Montanhas avolumam-se, descem. Ondas batendo numa praia infinita. Lá vai sorrindo a bunda. Vai feliz Na carícia de ser e balançar. Esferas harmoniosas sobre o caos. A bunda é a bunda, redunda.

Carta a um drogado

De todos os pássaros, os beija-flores são os que mais me fascinam. Suas cores brilhantes: verde, azul, preto. Nunca vi mas sei que alguns têm cores vermelhas. Flutuam no espaço como nenhum outro pássaro, suas asas batendo com uma velocidade tal que as torna invisíveis. E a velocidade do seu vôo: pairam no ar, imóveis, sugando a flor. De repente transformam-se em flechas que disparam pelo ar. Vivem do mel das flores. Enfiam seu bico fálico no orifício vaginal das flores, suas pequenas línguas saem e sugam o néctar doce.Foi assim a primeira vez: como o beijo manso e inofensivo de um beija-flor. Você sentiu sua língua doce entrando no seu corpo. De repente tudo ficou colorido, brilhante, leve. Alegre. Como se você estivesse sendo tocado pelos deuses. Que bom se a vida fosse sempre assim!O beija-flor se foi e sua vida voltou ao que era, o cotidiano de sempre que lhe parecia bobo e sem sentido. A vida ficava muito mais bonita com o beijo do beija-flor! O beija-flor voltou. Você ficou alegr…

A mina d'água

Minhas netas: O mundo de quando eu era criança era tão diferente do mundo em que vocês e eu vivemos agora que parece que ele aconteceu há muito, muito tempo mesmo, no tempo daquelas estórias antigas que começavam sempre assim: "Era uma vez, numa terra distante, há muito tempo atrás..." Será que eu vivi no tempo do "era uma vez"? A nossa viagem na minha máquina de tempo nos fez viajar 62 anos na direção do passado, quando eu era um menino de 5 anos. Vocês vão dizer: "Mas vovô, 62 anos é muito tempo mesmo! Você viveu no tempo do era uma vez!" Vocês são crianças de 10, 11 anos de idade. 62 anos é, para vocês, muito tempo, um tempo que vocês nem podem imaginar. Quando eu tinha a idade de vocês eu sentia do mesmo jeito. Mas não é muito tempo quando pensamos nos milhares de anos, nas centenas de milhares de anos que medem o tempo em que os nossos antepassados começaram a povoar o mundo. Vocês já ouviram falar sobre eles na escola, os homens pré-históricos, o ho…

Se a sua cozinheira quiser cantar enquanto cozinha, não deixe...

Desejo dar-lhe um estranho conselho, um conselho que nunca imaginei que um dia eu fosse dar. Esse é o conselho: Se a sua cozinheira tiver o costume de cantar enquanto cozinha, não permita. Cozinheiras que cantam em serviço podem, um dia, se transformar num imenso problema para você, com conseqüências financeiras inimagináveis... Se você acha que perdi o juízo, espere um pouco e você compreenderá.As explicações, freqüentemente, começam muito longe... Começo com uma conversa entre dois jagunços do Grande Sertão - Veredas, do Guimarães Rosa. Um deles confidencia ao seu companheiro: "Matar eu mato. Mas nunca fico com raiva..." O seu colega, duro de entendimento por lhe faltarem sutilezas psicológicas, não entende e pede explicação. O outro responde curto e grosso: "Quem fica com raiva leva o outro para a cama." Eu já disse que o ódio gruda mais que o amor. Você está amando... O amor é feliz, cheio de memórias bonitas. Você vai para a cama e dorme sorrindo. E sonha... M…

"A escolha do restaurante"...

Um grupo de amigos de 40 anos discutiam e discutiam para escolher o restaurante onde iriam encontrar-se para jantar. Finalmente decidiram-se pelo Restaurante do Velho Mikão porque as garçonetes usavam mini-saias e blusas muito decotadas.10 anos mais tarde, aos 50 anos, o grupo reuniu-se novamente e mais uma vez discutiram e discutiram para escolher o restaurante. Finalmente decidiram-se pelo Restaurante do Velho Mikão porque a comida era razoável e tinha vinhos de colônia.10 anos mais tarde, aos 60 anos, o grupo reuniu-se novamente e mais uma vez discutiram e discutiram para escolher o restaurante. Finalmente decidiram-se pelo Restaurante do Velho Mikão porque ali tinha toalhas plásticas nas mesas, música suave e sala de fumadores.10 anos mais tarde, aos 70 anos, o grupo reuniu-se novamente e mais uma vez discutiram e discutiram para escolher o restaurante. Finalmente decidiram-se pelo Restaurante do Velho Mikão porque lá havia uma rampa para cadeiras de rodas, agarradores nos WC e fr…

A origem da pinga

Antigamente, no Brasil, para se ter melado, os escravos colocavam o caldo da cana-de-açúcar em um tacho e levavam ao fogo. Não podiam parar de mexer
até que uma consistência cremosa surgisse.Porém um dia, cansados de tanto mexer e com serviços ainda por terminar, os escravos simplesmente pararam e o melado desandou. O que fazer agora? A saída que encontraram foi guardar o melado longe das vistas do feitor. No dia seguinte, encontraram o melado azedo fermentado). Não pensaram duas vezes e misturaram o tal melado azedo com o novo e levaram os dois ao fogo. Resultado: o "azedo" do melado antigo era álcool que aos poucos foi evaporando e formou no teto do engenho umas goteiras que pingavam constantemente. Era a cachaça já formada que pingava. Daí o nome "PINGA". Quando a pinga batia nas suas costas marcadas com as chibatadas dos feitores ardia muito, por isso deram o nome de "ÁGUA-ARDENTE". Caindo em seus rostos e escorrendo até a boca, os escravos perceber…

Crônica do Amor

Ninguém ama outra pessoa pelas qualidades que ela tem, caso contrário os honestos, simpáticos e não fumantes teriam uma fila de pretendentes batendo à porta. O amor não é chegado a fazer contas, não obedece à razão. O verdadeiro amor acontece por empatia, por magnetismo, por conjunção estelar. Ninguém ama outra pessoa porque ela é educada, veste-se bem e é fã do Caetano. Isso são só referenciais. Ama-se pelo cheiro, pelo mistério, pela paz que o outro lhe dá, ou pelo tormento que provoca. Ama-se pelo tom de voz, pela maneira que os olhos piscam, pela fragilidade que se revela quando menos se espera. Você ama aquela petulante. Você escreveu dúzias de cartas que ela não respondeu você deu flores que ela deixou a seco. Você gosta de rock e ela de chorinho, você gosta de praia e ela tem alergia a sol, você abomina Natal e ela detesta o Ano Novo, nem no ódio vocês combinam. Então? Então, que ela tem um jeito de sorrir que o deixa imobilizado, o beijo dela é mais viciante do que LSD,…

A casa de minha mãe nunca ficou pronta

Ando com vontade de ligar para minha mãe. Mas, minha mãe já morreu. Meu filhinho me perguntou hoje: "Cadê sua mãe, aquela que mandou seu mico embora porque ele mordeu seu dedo?" "Ela já foi para o céu..." - respondi-lhe com o velho lugar-comum. "E seu papai, aquele que andava no aviãozinho que ia até a Lua?" "Também foi para o céu...", repito pensando que um dia ele vai descobrir que vamos para baixo e não para cima. Mas, tenho mesmo vontade de ligar, pois, talvez, no telefone, possa haver um milagre e sua voz soar em meu ouvido: "Alô? 28-4858?" "Mamãe?" Na época desse número remoto do Méier, sua voz era jovem e feliz. Depois, foi enfraquecendo por outros números, até o tempo em que, já velhinha, atendia triste e doente o 47-8378: "E aí, meu filho, tudo bem?..." Como seria bom o telefone me salvar e alguém me chamar de "meu filho..." Seria bom entrar pelos fios do passado e fugir das dores que sinto com o …

Eu sei que a gente se acostuma. Mas não devia...

A gente se acostuma a morar em apartamento de fundos e a não ter outra vista que não as janelas do redor. E porque não tem vista, logo se acostuma a não olhar para fora. E porque não abre as cortinas, logo se acostuma a acender mais cedo a luz. E a medida que se acostuma, esquece o sol, o ar, e esquece a amplidão. A gente se acostuma a acordar de manhã de sobressalto porque está na hora. A tomar café correndo porque está atrasado. A comer sanduíche porque não dá tempo para almoçar. A sair do trabalho porque já é noite. A deitar cedo e dormir pesado sem ter vivido. A gente se acostuma a abrir o jornal e ler sobre a guerra. E aceitando aguerra, aceita os mortos e que haja número para mortos. E, aceitando osnúmeros, não acreditamos nas negociações de paz. E, não aceitando asnegociações de paz, aceita a ter todo dia, o dia a dia da guerra, dos números de longa duração. A gente se acostuma a esperar o dia inteiro e ouvir no telefone: hoje não posso ir. A sorrir para as pessoas…

Aprendi a querer o que Deus quer

“Aprendi a querer o que Deus quer, e tudo o que quiserdes, certamente se realizará.”

“Se, pois quiserdes colher à esquerda, semeai à direita:
meditai neste conselho que tem a aparência de um paradoxo
e que vos faz entrever um dos maiores segredos da filosofia oculta.”

Deus é o Universo, é a alma da Luz, é a verdade absoluta.
Deus é o capaz, é a razão, é o paradoxo de nossas vidas.

Temos o livre arbítrio, mas como toda regra, se tem exceções.
Somos donos do nosso destino, mas o que somos nem sempre
é o que gostaríamos de ser.
Tudo realmente está escrito nos astros e é por esta razão que os anjos nos ajudam
a enfrentar nossas vidas, para que possamos evoluir.
O grande segredo da Magia, é o AMOR, porém é preciso distinguir
o amor que imortaliza do que mata.

Deus sempre enviou anjos à Terra, para que homens
se sintam protegidos e amados na mais remota solidão.
E o que é a solidão senão um aprendizado de elevação.
Aprendi que nada nessa vida acontece por acaso
e se o acaso ocorre, ger…

Ter ou não Ter Namorado

"Quem não tem namorado é alguém que tirou férias remuneradas de si mesmo. Namorado é a mais difícil das conquistas. Difícil porque namorado de verdade é muito raro. Necessita de adivinhação, de pele, saliva, lágrima, nuvem, quindim, brisa ou filosofia. Paquera, gabira, flerte, caso, transa, envolvimento, até paixão é fácil. Mas namorado mesmo é muito difícil. Namorado não precisa ser o mais bonito, mas ser aquele a quem se quer proteger e quando se chega ao lado dele a gente treme, sua frio, e quase desmaia pedindo proteção. A proteção dele não precisa ser parruda ou bandoleira: basta um olhar de compreensão ou mesmo de aflição. Quem não tem namorado não é quem não tem amor: é quem não sabe o gosto de namorar. Se você tem três pretendentes, dois paqueras, um envolvimento, dois amantes e um esposo; mesmo assim pode não ter nenhum namorado. (?) Não tem namorado quem não fala sozinho, não ri de si mesmo e quem tem medo de ser afetivo. Se você não tem namorado, é porque não descob…

Você é

Você é os brinquedos que brincou, as gírias que usava. Você é os nervos a flor da pele no vestibular, os segredos que guardou, você é sua praia preferida, Garopaba, Maresias, Ipanema, você é o renascido depois do acidente que escapou, aquele amor atordoado que viveu, a conversa séria que teve um dia com seu pai, você é o que você lembra. Você é a saudade que sente da sua mãe, o sonho desfeito quase no altar, a infância que você recorda, a dor de não ter dado certo, de não ter falado na hora, você é aquilo que foi amputado no passado, a emoção de um trecho de livro, a cena de rua que lhe arrancou lágrimas, você é o que você chora. Você é o abraço inesperado, a força dada para o amigo que precisa, você é o pelo do braço que eriça, a sensibilidade que grita, o carinho que permuta, você é as palavras ditas para ajudar, os gritos destrancados da garganta, os pedaços que junta, você é o orgasmo, a gargalhada, o beijo, você é o que você desnuda. Você é a raiva de não ter alcançado, a impotên…

Alô, é Jesus!

Alô, é Jesus!  Se o telefone tocasse, hoje, na sua casa e, quando você atendesse, pensando que fosse um amigo de sua convivência diária, aquela voz terna que você nunca ouvira antes lhe dissesse: "Alô, é Jesus". O primeiro impulso seria, talvez, desligar o aparelho, todavia, algo muito estranho impediu-lhe dessa reação e você resolveu ouvir, atentamente. - Sim, sou eu, Jesus Cristo! Como está sua família? Eu não precisaria perguntar-lhe, porque sei de todas as coisas. Quero ouvir isto de você. - Hein, como está sua família, seu lar? O tempo de vida aí, na Terra, é cronometrado por instrumentos celestiais de alta precisão e o aconselho a gastá-lo muito bem. Aquele vazio da discussão inútil, da agressividade, da incompreensão, foi contado como tempo de vida. Não se desconta, no tempo, nenhum segundo mal vivido. - Alô, você está me ouvindo? Não desvie sua atenção. A ganância, o egoísmo, o individualismo, o ódio, embaçam a visão espiritual e o impedem de avistar o Calvário. …

UMA HISTÓRIA DE TANTO AMOR

Era uma vez uma menina que observava tanto as galinhas que lhes conhecia a alma e os anseios íntimos. A galinha é ansiosa, enquanto o galo tem angústia quase humana: falta-lhe um amor verdadeiro naquele seu harém, e ainda mais tem que vigiar a noite toda para não perder a primeira das mais longínquas claridades e cantar o mais sonoro possível. É o seu dever e a sua arte. Voltando às galinhas, a menina possuía duas só dela. Uma se chamava Pedrina e a outra Petronilha. Quando a menina achava que uma delas estava doente do fígado, ela cheirava embaixo das asas delas, com uma simplicidade de enfermeira, o que considerava ser o sintoma máximo de doenças, pois o cheiro de galinha viva não é de se brincar. Então pedia um remédio a uma tia. E a tia: “Você não tem coisa nenhuma no fígado”. Então, com a intimidade que tinha com essa tia eleita, explicou-lhe para quem era o remédio. A menina achou de bom alvitre dá-lo tanto a Pedrina quanto a Petronilha para evitar contágios misteriosos. Era qua…

15 Cenas de descobrimento do Brasil

Ainda não estamos habituados com o mundo. Nascer é muito comprido. (Murilo Mendes - "Reflexão número 1")
Cena 1 HISTÓRIA DAS IDÉIAS
Primeiro surgiu o homem nu de cabeça baixa. Deus veio num raio. Então apareceram os bichos que comiam os homens. E se fez o fogo, as especiarias, a roupa, a espada e o dever. Em seguida se criou a filosofia, que explicava como não fazer o que não devia ser feito. Então surgiram os números racionais e a História, organizando os eventos sem sentido. A fome desde sempre, das coisas e das pessoas. Foram inventados o calmante e o estimulante. E alguém apagou a luz. E cada um se vira como pode, arrancando as cascas das feridas que alcança.
Cena 2 TURISMO ECOLÓGICO
Os missionários chegaram e cobriram das selvagens o que lhes dava vergonha. Depois as fizeram decorar aAve Maria. Então lhes ensinaram bons modos, a manter a higiene e lhes arranjaram empregos nos hotéis da floresta, onde se chega de uísque em punho. Haveria uma lógica humanitária exemplar no negó…